Presidente do TRE-AC participa de palestra sobre os desafios da crise climática no Acre

Encontro destaca a necessidade de respostas institucionais frente aos eventos extremos

Encontro destaca a necessidade de respostas institucionais frente aos eventos extremos
Encontro destaca a necessidade de respostas institucionais frente aos eventos extremos

A presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Acre (TRE-AC), desembargadora Waldirene Cordeiro, participou, na manhã desta sexta-feira, 20, da palestra “Do risco à resiliência: os desafios e caminhos para uma Rio Branco mais forte frente à crise climática”, ministrada pelo professor adjunto da Universidade Federal do Acre (UFAC), Ricardo Nascimento. O encontro ocorreu no auditório da Escola do Judiciário (ESJUD) e reuniu magistrados e servidores para uma reflexão aprofundada sobre os impactos das mudanças climáticas no contexto local e regional.

Além da presidente do TRE-AC, participaram do evento o desembargador Luiz Camolez, diretor da ESJUD, o desembargador Raimundo Nonato, as juízas Olívia Ribeiro, presidente da Associação dos Magistrados do Acre (ASMAC), e Zenice Mota, bem como o juiz Gilberto Matos.

Logo no início da palestra, o professor Ricardo Nascimento provocou o público com duas perguntas centrais: estamos vivendo um cenário de crise climática em Rio Branco? Somos uma sociedade resiliente ou apenas naturalizamos os riscos? A partir dessas indagações, o palestrante apresentou dados e análises que apontam para um contexto de crise global, com reflexos diretos no Acre, marcado pelo aumento da temperatura, alterações nos padrões de chuvas e maior frequência de eventos extremos. Segundo o pesquisador, esse conjunto de fatores tende a intensificar episódios de enchentes, estiagens severas e incêndios, ampliando a vulnerabilidade socioambiental da capital e de outras regiões do estado.

O professor destacou que há, historicamente, uma tendência de naturalização dos problemas climáticos, expressa na percepção recorrente de que “todo ano tem cheia” e “todo ano tem seca”. Essa postura, segundo ele, reforça uma lógica reativa, baseada em premissas equivocadas, que desconsidera a real magnitude dos processos ambientais, bem como as fragilidades e potencialidades do território amazônico. Nesse contexto, o cenário de crise, na Amazônia ocidental, “tem rosto, tem endereço e tem data no calendário”, manifestando-se de forma concreta nas encostas marginais e taludes, com processos de rastejo, escorregamento e erosão; nos cursos d’água, com inundações do rio Acre e enxurradas urbanas, como as registradas na região do São Francisco; e nos terrenos baldios e áreas rurais, com a ocorrência de incêndios urbanos.

Ao traçar um paralelo internacional, Ricardo Nascimento citou o Japão como exemplo de sociedade que investiu em resiliência para enfrentar desastres naturais, como terremotos, enquanto mencionou o Haiti, que, após o terremoto de 2010, enfrentou uma grave crise humanitária, com mais de 220 mil mortes e cerca de 1,5 milhão de desabrigados. “Desastre natural ocorre quando você esquece”, afirmou o palestrante, ao destacar que a ausência de políticas estruturantes e de planejamento agrava os impactos dos eventos extremos.

Durante a apresentação, também foram compartilhados dados que dimensionam a crise no contexto local e estadual. Em Rio Branco e no Acre, 37 bairros e 22 comunidades rurais foram diretamente afetados por enxurradas e inundações nos anos de 2023 e 2024, evidenciando a amplitude do problema socioeconômico. Na última década, os prejuízos acumulados com danos diretos e indiretos decorrentes desses eventos chegam a R$ 1,6 bilhão, considerando perdas em infraestrutura, comércios e bens pessoais, segundo estimativas da Confederação Nacional de Municípios. Entre 2013 e 2023, foram registrados 196 decretos de desastres no Acre, sendo 94 relacionados a chuvas e 43 a estiagens. No período, 16 mortes foram contabilizadas, além de 29.753 desabrigados e 14.819 desalojados.

A desembargadora Waldirene Cordeiro, que também é coordenadora do Núcleo de Sustentabilidade Ambiental do Tribunal de Justiça do Estado do Acre, acompanhou a exposição e ressaltou a relevância do tema para o Judiciário.

 “Os dados apresentados demonstram que a crise climática já é uma realidade concreta no Acre e que seus impactos atingem diretamente a vida das pessoas, especialmente as mais vulneráveis. Para o Judiciário, esse cenário impõe um olhar atento sobre a efetividade das políticas públicas, a proteção de direitos fundamentais e a promoção da sustentabilidade como eixo transversal da atuação institucional. A construção da resiliência passa, necessariamente, pelo fortalecimento das instituições, pelo diálogo interinstitucional e pelo compromisso com soluções que aliem justiça social, responsabilidade ambiental e planejamento de longo prazo”, enfatizou.

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